Teletrabalho antes da internet: o conceito criado em 1973 que virou rotina

Muito antes de videochamadas, nuvem e aplicativos de mensagem, um físico americano já defendia que o trabalho deveria ir até as pessoas, e não o contrário. Em 1973, Jack Nilles cunhou os termos telecommuting e telework, que deram origem à palavra teletrabalho em português. A origem do teletrabalho, portanto, é anterior à internet comercial em mais de duas décadas e nasceu de uma preocupação bem concreta: o trânsito.
Quem foi Jack Nilles
Nilles trabalhou em projetos da Força Aérea dos Estados Unidos e da NASA, ligados a veículos espaciais e sistemas de comunicação. No início dos anos 1970, dedicava-se a encontrar aplicações civis para tecnologias desenvolvidas no setor aeroespacial e de defesa.
Segundo o relato que ele próprio tornou conhecido, a ideia surgiu de uma provocação: se era possível levar o homem à Lua, por que não resolver o problema do tráfego nas cidades? A resposta que ele propôs não passava por novas estradas ou veículos, mas por reduzir a necessidade de deslocamento. Se a informação podia viajar pelos fios de telecomunicação, parte do trabalho de escritório também poderia.
A ideia original
Nilles definiu o telecommuting como a substituição do deslocamento diário até o trabalho pelo uso de telecomunicações e computadores. Em 1973, ele iniciou um estudo sobre o que chamou de troca entre telecomunicações e transporte, investigando se levar o trabalho para perto das pessoas reduziria carros nas ruas e custos para as empresas.
Um detalhe costuma surpreender quem conhece o trabalho remoto atual: a proposta inicial não era, necessariamente, trabalhar de casa. O modelo testado envolvia escritórios satélites espalhados pela cidade, próximos de onde os funcionários moravam, conectados à sede. A casa aparecia como possibilidade, mas os centros descentralizados eram o foco.
O contexto ajudava. O ano de 1973 ficou marcado pela crise do petróleo, que encareceu combustíveis e colocou em discussão a dependência do automóvel. Reduzir deslocamentos passou a ser um argumento econômico, e não apenas de conforto.
As previsões da época e o que de fato aconteceu
As projeções dos anos 1970 imaginavam uma adoção relativamente rápida do teletrabalho, puxada pela redução de custos e pela economia de combustível. O que se viu foi um avanço bem mais lento.
- A tecnologia demorou. Terminais caros, linhas lentas e ausência de computadores pessoais limitavam o que podia ser feito à distância.
- A cultura resistiu. Gestores acostumados a supervisionar pela presença física desconfiavam de equipes que não podiam ver.
- Os ganhos eram difíceis de medir. Sem ferramentas de acompanhamento, era complicado demonstrar que o trabalho remoto mantinha a produtividade.
Nas décadas seguintes, o conceito sobreviveu em nichos, em programas de algumas empresas e em profissões mais autônomas. A popularização do computador pessoal, a chegada da internet comercial e, depois, da banda larga e dos serviços em nuvem removeram as barreiras técnicas. A barreira cultural caiu de forma abrupta em 2020, quando a pandemia de covid-19 obrigou milhões de pessoas a trabalhar de casa quase ao mesmo tempo.
O teletrabalho na rotina atual
No Brasil, o teletrabalho foi incluído na Consolidação das Leis do Trabalho pela reforma trabalhista de 2017 e teve regras atualizadas em 2022, que passaram a contemplar também o modelo híbrido. O que era experimento virou rotina para muitas funções de escritório.
Curiosamente, algumas preocupações atuais ecoam a proposta original. O interesse por escritórios de bairro, espaços de coworking perto de casa e modelos híbridos lembra os centros descentralizados imaginados em 1973. A redução do tempo de deslocamento continua sendo um dos benefícios mais citados por quem trabalha remotamente.
Outras questões, porém, eram pouco discutidas na época: o isolamento, a dificuldade de separar vida pessoal e profissional, o custo de estrutura transferido para o trabalhador e o desafio de manter a cultura de uma equipe que raramente se encontra. São temas que as empresas ainda estão aprendendo a administrar.
Meio século depois, a pergunta de Nilles segue atual. O trânsito das grandes cidades não desapareceu, mas a ideia de que nem todo trabalho exige deslocamento diário deixou de ser futurismo.
O que mais perguntam
- Quem inventou o termo teletrabalho?
- O físico americano Jack Nilles cunhou, em 1973, os termos telecommuting e telework, que deram origem à palavra teletrabalho. Ele é frequentemente chamado de pai do teletrabalho.
- O teletrabalho original era trabalhar de casa?
- Não exatamente. A proposta dos anos 1970 incluía escritórios descentralizados, próximos das residências dos funcionários, conectados à sede por telecomunicações. Trabalhar de casa era uma das possibilidades.
- Quando o teletrabalho foi regulamentado no Brasil?
- O teletrabalho entrou na CLT com a reforma trabalhista de 2017. Em 2022, novas regras atualizaram o tema e incluíram o trabalho híbrido.
Em resumo
Quem foi Jack Nilles: o essencial
Nilles trabalhou em projetos da Força Aérea dos Estados Unidos e da NASA, ligados a veículos espaciais e sistemas de comunicação. No início dos anos 1970, dedicava-se a encontrar aplicações civis para tecnologias desenvolvidas no setor aeroespacial e de defesa.
A ideia original: o essencial
Nilles definiu o telecommuting como a substituição do deslocamento diário até o trabalho pelo uso de telecomunicações e computadores. Em 1973, ele iniciou um estudo sobre o que chamou de troca entre telecomunicações e transporte, investigando se levar o trabalho para perto das pessoas reduziria carros nas ruas e custos para as empresas.
As previsões da época e o que de fato aconteceu: o essencial
As projeções dos anos 1970 imaginavam uma adoção relativamente rápida do teletrabalho, puxada pela redução de custos e pela economia de combustível. O que se viu foi um avanço bem mais lento.